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exposição monográfica com as obras de José Antonio da Silva pertencentes ao acervo do MAC USP pode ser lida como um desdobramento sobre o problema da autoria na história da arte. Isto porque estamos diante de um artista autodidata, cujas pinturas foram vistas como “frutos do isolamento vivido na mocidade” (Lourival Gomes Machado), e cuja fortuna crítica deveu-se à sua rápida incorporação ao debate modernista e presença em acervos importantes como o do antigo Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), pouco depois de sua descoberta pelos críticos Paulo Mendes de Almeida, Lourival Gomes Machado e Pietro Maria Bardi. A “invenção” de José Antonio da Silva pintor deu-se na segunda metade da década de 1940, quando aqui e fora, críticos e artistas modernistas retomavam uma questão cara à noção de arte moderna, atacada frontalmente nos anos do entreguerras, na Europa: a ideia de “primitivo” na criação artística. Em 1948, quando José Antonio da Silva realiza sua primeira exposição individual na Galeria Domus de São Paulo, o artista francês Jean Dubuffet, por exemplo, fundava seu Foyer de l’Art Brut[Fórum da Arte Bruta], no porão da galeria René Drouin em Paris, reunindo ali obras produzidas por artistas autodidatas.

As obras de José Antonio da Silva foram incorporadas ao museu em dois momentos bem distintos, que os identificam também com seus respectivos doadores. Quinze delas passaram ao acervo do MAC USP como Coleção Francisco Matarazzo Sobrinho, em 1963, provenientes do antigo MAM de São Paulo. Alguns indícios apontam para a reunião dessas obras no contexto da promoção de José Antonio da Silva como artista da Galeria Domus de São Paulo, entre 1948 e 1951. Num fundo de documentos de um dos primeiros diretores executivos do antigo MAM (Carlos Pinto Alves) encontramos uma extensa correspondência e minutas de contratos trocados entre ele e o artista, que nos sugerem uma relação muito estreita entre a galeria e o antigo museu, na promoção do recém-descoberto pintor. Da exposição na Casa de Cultura de São José do Rio Preto, em 1946, à sua participação na I Bienal de São Paulo, em 1951, a correspondência entre o artista e Pinto Alves aborda essencialmente dois assuntos: a redação e publicação da autobiografia do artista, Romance da minha vida , sob os auspícios do antigo MAM, em 1949; e seus acordos de venda e compra de obras com a Galeria Domus. Particularmente interessante é uma minuta de contrato de rescisão com a galeria, datada de 1951, no qual o artista lista 100 obras suas ali depositadas, parte significativa das quais deveria ser destinada a Francisco Matarazzo Sobrinho para saldar uma dívida do artista com o mecenas – que o havia ajudado na compra de uma casa. A datação das obras provenientes da Coleção Matarazzo confrontada com essa documentação nos sugerem que elas vieram todas desse ambiente, ou seja, de suas exposições na Galeria Domus. Ainda neste contexto, José Antonio da Silva viria a ser a estrela da Exposição de Pintura Paulista, organizada pela galeria em julho de 1949 para a sede do MEC, no Rio de Janeiro. O artista aparecia ao lado de Aldo Bonadei, Fúlvio Pennacchi, Emiliano Di Cavalcanti, Flávio de Carvalho, Yolanda Mohalyi, entre outros, com 63 pinturas, como um legítimo representante da pintura paulista. O texto de Lourival Gomes Machado sobre ele chamava a atenção para o fato da pintura de Silva ser pautada pela cor. Essa mesma ideia emerge também nos textos de Bardi, por ocasião da participação do artista na representação brasileira da Bienal de Veneza de 1952.

O segundo lote de obras de Silva passou ao acervo do MAC USP, em 1979, quando da doação da coleção do crítico, poeta e piscanalista Theon Spanudis. O colecionador doou um conjunto de 25 obras de Silva produzidas em sua grande maioria nos anos 1950. As escolhas de Spanudis são de outra natureza que as escolhas feitas para Matarazzo, e refletem uma segunda fase do trabalho do artista, em que o crítico teoriza sobre um “concretismo brasileiro” e busca aproximar as experiências de Silva às dos grupos de abstratos concretos brasileiros. A pesquisa estética de Spanudis serviu de base à sua tentativa de formulação da importância do “numinoso” na criação artística, e à busca por identificar o elemento geométrico como aquele essencial para o entendimento da arte como linguagem universal.

Entre primitivo e concreto, José Antonio da Silva se fez pintor no contexto modernista dos anos 1940/50. Que sua obra seja vista de uma perspectiva ou de outra, reflete sua introdução na história da arte moderna do Brasil num momento que parece marcar uma virada em torno da noção de modernismo: o abandono das tendências realistas e o mergulho no abstracionismo.

Ana Magalhães
Curadora

Fonte: MAC USP

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28 de janeiro de 2012 10:00até28 de janeiro de 2013 18:00

Terças a Domingos, das 10h às 18h (até 2013)

Local: Nova sede do MAC: Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301

O MAC USP contempla uma nova sede inaugurada no dia 28 de Janeiro de 2012, localizada na Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301. Apresenta a exposição “O Tridimensional no Acervo do MAC: uma antologia”, que marca a implantação do novo edifício do MAC USP no Ibirapuera. Embora concisa – a exposição com dezoito obras ocupa apenas o térreo do edifício – a mostra apresenta a crise que atravessam as artes visuais, sobretudo a partir do final da Segunda Guerra, focando sua atenção no esfacelamento do conceito tradicional da escultura ocorrido nas últimas décadas. A mostra trás obras de artistas como Cildo Meirelles, Ângelo Venosa, Maria Martins, Ernesto Neto e Carmela Gross, entre outros.
Entrada gratuita.

Carmela Gross, 'A Negra', 1997

Embora concisa – a exposição com dezoito obras ocupa apenas o térreo do edifício – a mostra apresenta a crise que atravessam as artes visuais, sobretudo a partir do final da Segunda Guerra, focando sua atenção no esfacelamento do conceito tradicional da escultura ocorrido nas últimas décadas. Apresentando alguns dados e sublinhando parâmetros que ajudam a compreender a complexidade da arte entre os anos 1940 e o final dos anos 1990, a exposição dá o tom de como o MAC USP pretende propor a série de mostras que, no decorrer dos próximos meses, complementará a implantação do Museu neste novo espaço. As balizas do MAC USP para tal empreendimento são as próprias obras que compõem seu acervo.

A implantação gradual permitirá equipar o Museu dentro das normas museográficas e, ao mesmo tempo, levará ao público a mensagem de que a inauguração de mais uma sede para um museu não deve ser encarada apenas como mais um evento da agenda artística/cultural da cidade. O MAC USP – um museu de arte contemporânea pertencente a uma universidade pública – não deve ser confundido com mais um centro de consumo cultural. Por meio dos estudos que realiza em seus acervos de obras e documentos, o MAC USP desenvolve trabalhos para a ampliação do conhecimento, e suas exposições – que passam a ser apresentadas também nesse novo espaço – deverão intensificar o compromisso do Museu com a necessidade de estender o conhecimento por ele produzido para um público mais amplo.

A exposição apresenta trabalhos dos seguintes artistas: Frida Baranek, Eduardo Climachauska e Paulo Climachauska, Sérvulo Esmeraldo, Carlos Fajardo , Carmela Gross , Liuba Wolf, Maria Martins, Cildo Meireles, Henry Moore, Ernesto Neto, Gustavo Rezende, Chihiro Shimotani, François Stahly, Sofu Teshigahara, Ângelo Venosa, Ales Villegas, Franz Weissmann e Haruhiko Yasuda.

6 de outubro de 2011 10:00até29 de julho de 2012 18:00

De 6 de Outubro a 29 de Julho de 2012
MAC USP Ibirapuera
Entrada Gratuita

Exposição com 150 obras nacionais e internacionais do acervo do MAC discute a existência de apenas um modernismo brasileiro, apresentando as várias vertentes da arte produzida no período.

Entre as peças em exposição, divididas em cinco blocos, estão obras de artistas como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Flávio de Carvalho, Di Cavalcanti, Paul Klee, Pablo Picasso, Giorgio De Chirico, Maria Martins, Giorgio Morandi, Iberê Camargo, Tomie Ohtake, Wassily Kandinsky, Fernand Léger, Victor Brecheret, Antônio Gomide, Henri Matisse, Alfredo Volpi, Alexander Calder, Max Bill, Lygia Clark, Marc Chagall, Ismael Nery, Lasar Segall e muitos outros.

MAC USP Ibirapuera 
Pavilhão Ciccillo Matarazzo, 3° piso – Parque do Ibirapuera
CEP 04094-000 – São Paulo – SP – Brasil
Tel.: 55 11 5573.9932

Horário de funcionamento
Terças a domingos das 10 às 18h
Segunda-feira: fechado

Informações e agendamento
55 11 5573-5255

Imprensa e divulgação
55 11 3091-3018

Mais informações: 

http://www.mac.usp.br 

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